4. INTERNACIONAL 29.8.12

1. TODO O PODER A KICILOVE
2. DIFERENTE DOS TIROS DE SEMPRE

1. TODO O PODER A KICILOVE
O jovem e sedutor Axel Kicillof  o idelogo e o faz-tudo do plano a conta-gotas de Cristina Kirchner para centralizar a economia da Argentina nas mos do estado.

     Ainda de luto pela morte do marido, o ex-presidente Nstor Kirchner, h distantes 22 meses, a presidente Cristina Kirchner avana com um projeto poltico prprio. Se Nstor inventou o kirchnerismo, uma evoluo do peronismo ainda centrado no favorecimento de empresrios amigos, na perseguio a opositores e no uso dos sindicatos como instrumento de presso, Cristina forjou o cristinismo. Desde que ela assumiu o segundo mandato, o modelo, como dizem os argentinos, extrapola o legado poltico do marido. Sua ambio  ter o controle total da economia, em que o estado definir o que as empresas devem produzir, quanto vo investir e de onde importaro matrias-primas. No basta determinar os preos a ser cobrados. O cristinismo quer sentar-se na direo das companhias e tomar as decises estratgicas. O homem com as habiLidades para instalar  fora essa nova fase j foi escolhido.  o economista de 40 anos Axel Kicillof, ou Kicilove, como a oposio o apelidou numa referncia irnica aos seus olhos azuis e  sua pinta de cantor de tango. Ele  membro do La Cmpora, o grupo de jovens liderado pelo filho da presidente, Mximo, que colocou 7000 apadrinhados na burocracia estatal.
     Com costeletas protuberantes, antiquadas ideias marxistas e o primeiro boto da camisa sempre aberto, Kicillof precisou de apenas oito meses no governo para conquistar o status de confidente para assuntos econmicos da presidente. Nomeado em dezembro passado para o segundo posto na hierarquia do Ministrio da Economia, foi dele a ideia de confiscar as aes da espanhola Repsol na petrolfera YPF, em abril. De l para c, Kicillof estendeu sua influncia.  ele quem define o preo da gasolina e, em breve, da eletricidade. Tambm instalou gente de confiana nos cargos de diretoria aos quais o governo tem direito em 41 empresas privadas com participao de fundos pblicos. Arrogante como s podem ser aqueles que se creem detentores de uma verdade ideolgica absoluta, Kicillof mandou dizer que vai colocar um brao direito seu para comandar uma grfica expropriada na quarta-feira passada. A empresa foi acusada de ter como scio o vice-presidente, Amado Boudou, que tentou favorec-la em uma licitao para imprimir dinheiro. Ao estatizar a grfica problemtica, a Casa Rosada valeu-se de uma ttica no mnimo original para jogar areia sobre o escndalo.
     Apesar de seus mltiplos defeitos, o kirchnerismo ainda acreditava que a iniciativa privada era necessria. Cristina no pensa assim. Com ela, a participao do estado na economia se tornou a maior da Amrica Latina: 42% do PIB. Nstor Kirchner pressionava os empresrios a baixar os preos, j Kicillof quer determinar diretamente os valores, diz o cientista poltico Marcos Novaro, diretor do Centro de Pesquisas Polticas, em Buenos Aires. Ele completa: Estamos passando por uma clara transio de capitalismo de amigos para um capitalismo de estado, com economia centralizada. Os empresrios temem que o vice-ministro faa uso dos relatrios de oramento das companhias e dos balanos para coibir demisses e forar investimentos, mesmo que isso comprometa os lucros. Kicillof no liga para esse detalhe. Quando ajudou a administrar a Aerolneas Argentinas, estatizada em 2008, a companhia passou a registrar dficits anuais espantosos. Os empresrios que se rebelarem contra as ordens de Kicillof correm o risco de ter suas empresas expropriadas. O idelogo do cristinismo  um insacivel.
TATIANA GIANINI


2. DIFERENTE DOS TIROS DE SEMPRE
O tiroteio em Nova York no faz parte da perturbadora crnica de americanos que saem atirando contra inocentes  desta vez, a polcia apertou o gatilho.

     Como aconteceu no corao de Manhattan, e ainda por cima em frente ao Empire State Building, o emblemtico arranha-cu da cidade que 4 milhes de turistas visitam todo ano, o tiroteio de sexta-feira passada chamou a ateno do mundo, mas no  o que parecia ser: no faz parte da perturbadora sequncia de franco-atiradores que saem disparando contra inocentes e tambm no  mais um caso provocado pela excepcional liberalidade com que os americanos tratam a venda de armas de fogo. Jeffrey Johnson, designer txtil de 58 anos, sem antecedentes criminais e agindo sozinho, voltou ao local de onde fora demitido havia um ano e disparou contra um ex-colega de trabalho. Aparentemente, vingava-se de alguma rixa. A polcia de Nova York, sempre atenta a qualquer sinal de terrorismo, entrou em ao. Resultado: dois mortos, o atirador e sua vtima, e nove feridos.
     A matemtica do tiroteio sugere que a polcia de Nova York ficou mais assustada do que deveria. Johnson tinha uma pistola semiautomtica calibre 45 com um tambor de oito tiros. Disparou cinco contra o ex-colega, Steve Ercolino, 41 anos. Sobrariam trs. Mas h nove feridos. Na entrevista coletiva que concedeu no local duas horas aps o tiroteio, o prefeito Michael Bloomberg admitiu que alguns dos feridos podem ter sido alvejados pela prpria polcia. Raymond Kelly, chefe de polcia, tambm presente  entrevista, reconheceu que a conta s fecha quando se contabilizam os dezesseis disparos feitos pela polcia.
     Bloomberg, defensor da restrio  venda de armas, aproveitou o episdio para frisar sua tese. Lembrou que Nova York  a cidade mais segura do pas, mas no est imune ao problema nacional da violncia das armas. O prefeito surfou em duas tragdias recentes. Em julho, um jovem de 24 anos abriu fogo contra a plateia que assistia ao ltimo filme do Batman em Aurora, no estado do Cobrado. Matou doze e feriu 58. No incio de agosto, um atirador disparou dentro de um templo sikh em Oak Creek, no estado de Wisconsin. Matou seis e deixou trs feridos, antes de ser morto pela polcia. Cada um desses episdios foi sucedido pelo debate sobre o controle da venda de armas.
     Em Nova York, tudo indica que Jeffrey Johnson no abriu fogo indiscriminadamente pela rua. De manh cedo, foi ao local onde trabalhara durante seis anos e ficou  espreita, atrs de um veculo estacionado, esperando que seu desafeto chegasse  empresa. Quando Steve Ercolino apareceu, Johnson disparou cinco tiros. At a noite de sexta-feira, havia a suspeita de que o atirador teria disparado uma vez contra a polcia. Na sua pistola foram encontradas duas balas, o que joga todos os demais feridos na conta da polcia.
     Alm disso, o estado de Nova York no  um bunker do belicismo americano. Ao contrrio.  um dos piores lugares para denunciar a venda desbragada de armas. Estima-se, com base numa pesquisa de 2001 que ouviu mais de 200.000 pessoas, que 32% dos americanos tenham pelo menos uma arma em casa. Wyoming e Alasca, mais rurais que urbanos, so os estados com a maior proporo de cidados armados. Nova York est entre os seis estados com menos gente armada. S 18% da populao tem arma de fogo. Nova York, na semana passada, no foi palco do problema nacional das armas. Foi palco de algo que nunca acaba: a vingana humana.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

